quinta-feira, 29 de setembro de 2011


A minha amiga telefonia...


Sou uma telefonia ,mas não uma qualquer telefonia:pelo meu nome começado por(S)devo ter nascido
num país do Norte da Europa de nome Alemanha,sou grandona,tenho uma côr de mel e logo acima dos meus estimados botões embeleza-me uma cortina talvez confeccionada com fios de seda,que isto de ser telefonia dá-me muita informação mas na área têxtil confesso alguma ignorância.
Logo à nascença viajei,lembro-me de me terem encaixotado com umas palhinhas brancas e brilhantes para não me magoar,só mais tarde percebi que estava finalmente num lar,como fui lá parar não sei,estava fechada num caixote e como telefonia que sou tal facto ultrapassou-me,a mais pura verdade é que após a minha entrada neste lar é que a minha vida começou de verdade,descobri que tinha vozes dentro de mim estou sempre numa sintonia bastante afinada,conto histórias,sei que quem me escuta vive emoções e alguma delas são deveras inesquecíveis deixo nas pessoas uma mistura de alegria e por vezes algum sabor amargo quando canto algo que fale de dôr de cotovelo ai ai como elas choram lembrando algum sentimento mal resolvido ,ou não!?
Vivi anos gloriosos naquele lar ,até que um dia o passado de alegrias ficou esquecido ,as minhas válvulas começaram a fraquejar e os meus donos ludibriados por alguma telefonia de componentes electrónicos tomaram uma atitude quanto a mim deplorável,puseram-me na rua,sim!!na rua,no passeio para ser recolhida pelo camião que neste país onde era o meu lar passa uma vez por mês a recolher os meus outros familiares rejeitados pelos donos:esquecia-me de dizer que este país onde era o meu lar é muito perto daquele onde supostamente nasci, e chama-se Suiça.
Quis a minha sorte de telefonia rejeitada que estivesse nesse país a viver temporáriamente uma jovem sra.que ao passar junto do passeio onde me abandonaram me olhasse e sentisse por mim um amor repentino daqueles à primeira vista,mas que permanecem para sempre.Num impulso pegou-me ao colo e num esforço que eu sei que ela fez,porque sou muito corpolenta,transportou-me para sua casa que era a uma distância considerável foi uma viagem muito divertida ela estava na companhia de amigas,e riam ao mesmo tempo que diziam algumas graçolas.A vida fê-la mudar de vida;afastámo-nos por algum tempo, mas hoje estamos juntas novamente e mesmo sofrendo de afonismo crónico estou feliz!tenho um lugar de destaque em sua casa que hoje é minha também onde sou tratada como um bibellot,por aqui vivem alguns familiares meus que até cantam as canções do meu tempo e às vezes cantam em uníssono,toda esta casa é música e assim os meus dias mesmo com algumas dores por falta de algumas válvulas que me foram tiradas e não substituídas são dias felizes ,estou na reforma mas ainda não morri,às vezes andam por aqui umas crianças que se divertem a calcar os meus botões e eu fico em silêncio já não consigo reagir e, eles até são tão graciosos que prefiro observá-los,sei que pelo amor que os une à sua avózinha um dia que ela parta talvez me continuem a deixar ficar aqui em casa recordando os dias em que éramos só nós a música e a conversa.
Já percebi que ela(a minha dona)não perde uma boa conversa na telefonia e o que acho mais engraçado é quando ela conversa sózinha ou se ri com gargalhadas com o que ouve aos outros,ai ai ai como me divirto!e o que eu gosto quando a minha dona me acaricia com um paninho côr de laranja muito macio(vê-se que gosta de mim)-que para ela lá por eu ser velha e inútil não sou para jogar fora.
(EU)
08-05-2010
21.00H

(Esta é a história de uma velha telefonia,(velha mas muito bela,)uma amiga que pela idade já só nos ouve em silêncio,mas às vezes o silêncio faz falta.)

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