quinta-feira, 29 de setembro de 2011


Tinha chegado o tempo em que era preciso que alguém não recuasse...e a terra bebeu um sangue duas vezes puro...Sophia M.Breyner



Recolhido nos jornais da época e elaborado por:


Adelina Charneca Trindade
Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer…

Começa assim este poema de Vicente Campina um dos mais singelos dedicado a esta mulher uma mulher que poderia ser uma de nós uma mulher que antes de ser mãe era mulher; mulher feita mãe; mãe extremosa que não queria que nada faltasse aos seus filhos para isso trabalhava de sol a sol naquele Alentejo profundo , o Alentejo queimado ,onde as pessoas vergadas sobre o trigo ceifavam o pão dito “o de Portugal”,exigir mais dois escudos de salário custou-lhe a vida; vida tão breve; vida tão sofrida; vida dedicada.
Conta a sua história, ( aquela apartidária )que tinha 28 anos; sim! Pessoalmente acredito que o que movia Catarina era a ânsia de dar alimentos aos seus filhos e nunca uma filiação partidária, que lhe quiseram claramente colar a todo o custo.
Neste dia , em que recordamos o 57ºaniversário( mais de meio século)da sua morte que nos deve servir de exemplo na luta pelo bem estar da nossa família reflictamos, sobre o que mudou na nossa sociedade no que diz respeito às mulheres…quase nada! os jornais trazem-nos quase todos os dias noticias de mulheres que são brutalmente assassinadas muitas vezes junto de seus filhos, outras vezes ainda, os próprios filhos também são vitimas; isto mostra-nos que os Carrajolas não estão extintos, estes ao contrário do Tenente assassino de Catarina, são os Carrajolas que dormem com elas.
Ainda e lembrando aqui todas as mulheres porque hoje é uma grande mulher que homenageio quero também acrescentar o quanto se mantêm as semelhanças daquele Alentejo e o de hoje.
Quase nada mudou !!!
As mulheres agora já não se vergam sobre o trigo : mas, levantam-se às quatro da manhã para viajarem até Espanha onde vão colher morangos, só regressando já tarde …de noite.
Aquele povo , cerra os dentes e trabalha no que há e o que há é quase nada…continua a ser (Alentejo esquecido que ainda um dia hás-de cantar).
Sim ! porque a esperança não morre:

E o poema continua…

Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem para si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas a voar
Ó Alentejo esquecido
Que ainda um dia hás-de cantar…
Na imprensa da época: Anteontem, numa questão entre trabalhadores rurais, ocorrida numa propriedade agrícola próximo de Baleizão, e para a qual foi pedida a intervenção daG.N.R. de Beja, foi atingida a tiro Catarina Efigénia Sabino, de 28 anos, casada com António do Carmo, cantoneiro em Quintos. Conduzida ao hospital de Beja, chegou ali já cadáver. A morte foi provocada pela pistola-metralhadora do sr. Tenente Carrajola, que comandava a força da G.N.R. No momento em que foi atingida, a infeliz mulher tinha ao colo um filhinho, que ficou ferido, em resultado da queda. A Catarina Efigénia tinha mais dois filhos de tenra idade e estava em vésperas de ser novamente mãe. O funeral realizou-se ontem, saindo do hospital de Beja para o cemitério de Quintos. Centenas de pessoas vieram de Baleizão para acompanharem o préstito, verificando-se impressionantes cenas de dor e de desespero. Segundo nos consta, o oficial causador da tragédia foi mandado apresentar em Évora. — Diário do Alentejo, 21 de Maio de 1954Recolhido nos jornais da época e elaborado  por,(EU)19-05-201000.00h

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