sábado, 20 de junho de 2015

Carta aberta ao amor de mãe
Foi contigo que aprendi a amar os Ranunculus,
contigo aprendi ,o que eram ervas boas para o chá
contigo aprendi o sabor das sopas de tomate,e...
confesso ,não gostava ,
depois...
bom,passei a adorar
e agora ,se vou à Feira dos Ganhões não posso passar sem comer essa magnifica iguaria Alentejana ,
tão simples e tão deliciosa,
como só o podem ser as coisas simples e bonitas.
Contigo aprendi o respeito pela natureza
o respeito por um bom dia ou boa tarde
aprendi a amar os Goivos,os Rapazinhos(flor),
Contigo aprendi a cantar e a manter o sorriso por detrás da tristeza
(Risos)aprendi que não se devem pintar os olhos com giz de cor na escola,
Contigo aprendi tudo ou quase tudo que fez de mim esta filha que tu achavas tão bonita(claro,os olhos de mãe são assim) 
Aprendi a cozer as meias a fazer uma limpeza bem feita em casa,aprendi a ser mulher pronta para casar e nenhum marido pôr defeito,mas esqueceste-te de me avisar que eu não tinha que ser perfeita,e que os príncipes não existem,e se existem têm orelhas de burro,e boca de sapo,
Tu,a quem eu sempre tratei por você e que agora te escrevo assim com este tu cá tu lá,só se pode explicar porque já és um anjo,e os anjos tratam-se por tu.
As nossas conversas nunca foram sobre a nossa intimidade ,os teus mais 40 anos que eu mantinham-nos uma distância de mentalidade e de sentir muito diferente uma da outra.
Costumava dizer que o pior na vida que me podia ter acontecido foi ter nascido,mas,agora já mudei de ideias,se eu não tivesse nascido não teria esta boca para babar-me de ternura e amor pelas lindas e boas filhas que tenho porque Deus mas deu assim,muito menos pelos fantásticos netos(minha bengalas nestes dias de( desiquilibrio),
não teria este dom de poder dizer por palavras o que me vai na alma,sem ter que enfrentar uma assembleia de juízes implacáveis,escrevo o que me apetece e se não gostarem para mim é indiferente,são sentimentos meus e só meus ,apenas gosto de os publicar,e hoje,apeteceu-me escrever-te uma carta aberta ,igual a tantas outras que mantenho secretas.
Quando começaste a ser consumida por essa doença triste e devastadora vivemos momentos muito tristes as duas ,foi muito mau para mim perceber que não me conhecias,que tinha que estar constantemente atrás de ti,ainda me lembro do que fizeste na caixa dos meus chapéus(sempre gostei de ter chapéus,tu sabes disso)acho que foi a minha herança da época de Miss Ana Maria Lucas que me influenciou nesse meu gosto,tive que os deitar para o lixo,fiquei uns anos sem comprar chapéus ,mas já voltei a eles e adoro,e também te confesso,não tenho mágoa de ti por nada,apesar de hoje saber que podias ter evitado alguns sofrimentos na minha vida,sabias bem que te obedecia e que fosse como fosse eu merecia muito melhor,mas Deus quis assim,não foste só tu.
Vai longa a minha carta aberta em jeito de poema.
Que lá de onde estejas nunca deixes de me ouvir,sei que agora voltaste a conhecer-me e que me respondes,ouço a tua voz sabes?
Às vezes quando ouço a Ada de Castro a cantar na Telefonia sinto-me viajar até à nossa cozinha onde tu gostavas de cantarolar os seu fados,enquanto cozinhavas..
Sabes que pese embora o mano mais novo me tenha roubado o teu colo por ter só 9 meses de diferença de idade de mim,sempre soube que era o teu colo o melhor do mundo,o melhor para chorar as tristezas e para rir também,e ainda para sentar os meus maiores amores que são as minhas filhas.
Em suma,termino como se termina uma carta.
Desejando-te tudo de bom ,e que daí de onde estejas olhes por nós como sempre o fizeste.
Gosto de ti!
Tua filha
Adelina Garrido Charneca

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